Casa esférica

 

   Em meio ao deserto, uma eterna tempestade de areia vive em fúria e majestosamente. Dentro de uma casa esférica, sustentada por uma armação metálica que permite sua locomoção fácil pelo deserto, uma família de quatro pessoas vivem em espera. Lilian é casada com Arthur há 20 anos e têm dois filhos, Annie de dez anos e Bill de oito.
   Estão viajando pelo deserto por mais de dois anos, com comida calculada para três anos, os filhos estudam por livros e os próprios pais ensinam as crianças. Arthur dirige a casa pelo deserto às cegas, somente pelos desenhos de mapas antigos. Bill e Annie passam todo o tempo vago olhando pela janela, tentando avistar algo. Todas as noites, antes de dormir, Lilian conta o porquê estavam em tal viagem:
   - Meu avô me contava que ele estava neste mesmo deserto, nesta mesma casa, nesta mesma tempestade de areia e que, um dia, quando a tempestade parou, ele finalmente conseguiu sair para ver como era o deserto, ele me contou que não se lembra como ele é, apenas que viu três luas magnificas e luminosas no céu. Disse que foi por pouco tempo até que a tempestade voltasse, mas que nunca tinha visto algo tão lindo em toda a sua vida. Se dizia sortudo todos os dias por ver tal maravilha e se orgulhava muito por ser uma das únicas pessoas por presenciar tal evento. 
   Annie, um pouco desanimada por não terem sucesso em mais de dois anos, perguntou:
   - Será que vamos mesmo conseguir? Esta tempestade parece ser eterna. Será mesmo verdade esta história que o bisavô contava?
   - Eu confio no meu avô e vocês deveriam fazer o mesmo. Agora durmam, boa noite.
   A carinhosa mãe beija seus filhos na testa e vai para perto de seu marido. Ele a aconchega em seus braços e ambos deitam na cama. Preocupados com as crianças, o casal se comunica através de olhares, pois não queriam que as crianças ouvissem nenhuma conversa que os deixassem mais assustados.
   Amanhece e todos se levantam, ainda um pouco irritadiça, Annie comenta baixinho:
   - Outro dia nesta bola andante.
   Sentam-se a mesa para tomar o café e Bill pergunta:
   - Pai, hoje eu posso controlar a casa?
   - Não filho, você só tem oito anos, ainda não está preparado.
   A casa balança e todos se desequilibram. Arthur corre em direção dos controles e olha pela janela, assustado, avisa:
   - Segurem-se, a tempestade piorou e os ventos estão mais fortes.
   Outro balanço faz com que Lilian se desequilibre e caia machucando seu braço. Annie e Bill correm para ajudá-la:
   - Mãe, você está bem?
   - Só machuquei um pouco, não se preocupem comigo. Segurem-se em algo, rápido!
   Mais um balanço acontece e em seguida um barulho de chuva forte, todos estranham, Annie corre para ver pela janela e avisa:
   - Não é chuva, são pedregulhos que estão vindo em nossa direção.
   Ela volta para perto da mãe e o pai se une a eles. Os quatro se protegem agarrados juntos e rezam para que a casa aguente tais pancadas. Bill, medroso, não para de gritar:
   - É o nosso fim, nós vamos morrer!
   Algumas horas se passam e o pavor continua, cada vez mais contidos e cautelosos, atentos a cada detalhe e tentando imaginar o que se passava lá fora. Enfim a tempestade acalma e o barulho termina. Pouco a pouco a família volta a normal dentro da casa, Arthur cuida do braço de sua esposa com curativos.
   Arrumando as coisas que saíram do lugar, vendo o que quebrou e o que dava para ser consertado. Ao abrir a dispensa para pegar ingrediente para preparar o almoço, Lilian chama seu marido com um tom de assustada, ele vai até ela e olha receoso para o que encontra. Muitas latas amaçadas, vidros quebrados, comida estragada e derramada. Separavam o que dava para aproveitar e calcularam que tinham apenas mais três dias de comida. Sozinhos, resolveram que seria a ultima noite naquele deserto e que amanhã voltariam para casa.
   Em sua cama, Lilian chora baixinho e se escondendo de seus filhos para que não percebessem o que estava acontecendo. Triste por não conseguir dar o presente para seus filhos e por não conseguir completar sua missão. Desejava tanto ver aquelas luas que seu avô falava tanto. Pena que não tinha dado certo. Chorava pela desesperança de si mesma.
   A noite chegou e todos dormiam em sono profundo. Até Bill acordar um com clarão em sua cara, vindo da janela a luminosidade e, medroso como sempre, acordou sua irmã antes de ir olhar:
   - Annie, acorda! Tem algo lá fora.
   Ela acorda e também estranha o clarão, ela sai da cama e vai lentamente espiar da janela, seu rosto se ilumina e com olhar de fascínio grita e acorda a todos:
   - Mãe, pai! Acordem, a tempestade parou! As luas estão no céu.
   Lilian pula da cama e Arthur corre para abrir a porta, eles descem da casa e saem para o deserto. Admirados, os quatro olham o céu. As três luas realmente eram lindas, uma era azul, outra vermelha e a outra lilás. Todos riam e sorriam, maravilhados pela beleza do momento único e a conquista de tal sonho.
   Logo os ventos voltaram, a areia levantou e tiveram que entrar novamente. Sem  sono algum, elétricos e vivos, comentavam uns aos outros o que viram para confirmar se era verdade. Annie agradeceu a sua mãe:
   - Obrigada mãe, foi a coisa mais linda que eu já vi e que provavelmente verei em toda a minha vida. Por mais que tenha demorado este tempo todo, por mais que eu tenha reclamado sem saber, tudo valeu a pena. Obrigada mãe, este foi o maior presente de todos!
   Depois daquele dia, todos mudaram um pouco, sorriam mais e reclamavam menos. Voltaram para casa e ao mesmo tempo sentiam que sua casa era o deserto. Como o avô de Lilian, os quatro se diziam muito sortudos e gratos todos os dias por terem visto aquelas três luas magnificas, mas ninguém lembrava como era o deserto. 

 

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