Dançando para o Vento

 

 

   Em uma montanha muito alta, o vento batia forte e balançava todas as árvores que nela viviam. Em seu topo, havia um pequeno templo, formado apenas por um círculo de pedras cristalinas e pontiagudas, ao seu redor, enormes eucaliptos que exalavam seu refrescante odor por toda a montanha. Havia uma lenda sobre este lugar, quem colocasse um sino dos ventos feito por si próprio em um dos galhos, conseguiria ouvir a voz da pessoa amada.
    Sabendo desta lenda, uma jovem, ainda apaixonada pelo homem que a fizera sofrer, fez um sino dos ventos com conchas do mar e seguiu viagem rumo ao topo da montanha. Subida nada fácil, floresta que abrigava animais selvagens e sedentos por carne, plantas venenosas e um nevoeiro, que dificultava a visão, a fez perder a direção.
   A noite chegava e o perigo aumentava para a jovem apaixonada, com medo, ela corria e se perdia cada vez mais, desesperava-se em lágrimas e pensamentos angustiosos, ela rezava e nada adiantava. A noite chegou e a escuridão tomou conta de toda a montanha, só se via as estrelas e nada mais. Passou a ouvir cobras rastejando, ratos mordiam seus pés e ela os chutavam com força para que não voltassem.
   Carregava seu sino junto ao peito, protegendo-o como se fosse mais importante que sua própria vida. Correndo em qualquer direção, encontrou e quase caiu em um penhasco, este com centenas de metros. Chorando e cansada, sentou-se um pouco na beira do penhasco. Pensava que não conseguiria, já duvidava se realmente existia tal lugar e até da própria lenda.
   Percebeu que o céu começara a clarear, mas era muito cedo para o amanhecer, era a lua cheia que começava a nascer. A floresta começava a clarear. Ela percebia o momento mágico e belo e ficou a admirar. Uma brisa apareceu delicadamente e moveu seus belos cabelos. Ao olhar para trás, viu o topo da montanha e seguiu caminho. A floresta aparentava estar mais calma e silenciosa, pisando cuidadosamente para não fazer nenhum barulho, demorou para chegar ao templo.
   Aliviada ao ver que o local existia e era exatamente como a lenda descrevia. Só faltava subir em uma das árvores e pendurar seu sino dos ventos. Já haviam outros pendurados, alguns dos eucaliptos estavam tão cheios que mal se conseguia ver os galhos. Ao pendurar o seu de forma que ela pudesse vê-lo, foi até o centro do círculo, lá ela esperava ouvir a voz de seu amado, apenas mais uma vez.
   Nenhum vento, nenhuma voz apareceu. A lua já estava no centro do céu e tornava a noite iluminada. Desapontada, deitou-se no chão e passou a admirar o céu. Começou a chorar de raiva por tudo o que tinha passado, ter sido em vão.
   A mesma brisa que balançou seus cabelos uma vez, voltou, e os sinos começaram a soar. A junção de vários sons perolados trouxe de imediato uma paz e tranquilidade para o coração da moça, ela parou de chorar e sentou-se. Estranhamente, alguns passarinhos começaram a cantar e os sons se uniam em uma harmonia perfeita.
   Sem perceber, a jovem já estava dançando a bela música. O vento soprava cada vez mais forte e a música aumentava sua magnitude. Os cristais brilhavam pela luz da lua e o lugar se tornou mais belo do que a lenda descrevia. Quanto mais a música aumentava, mais a moça dançava.
   O vento era forte e começou a balançar as árvores, fez rodamoinhos e então, dentro do círculo, tomou forma de homem e começou a dançar com a jovem. A moça sentia o carinho de seu antigo amor, dançava como se fosse ele a sua frente e não o vento. Sorria e ria de felicidade, agradecia e vivia, amava sem medo aquele momento.
   No meio da dança, ela começou a ouvir, como se estivesse sussurrando, a voz daquele homem, ele dizia coisas tão baixinhas que mal podia-se ouvi-las, mas só de ouvir aquela voz, ela já se sentia flutuando, como se estivesse em cima de uma nuvem. Sem avisar, o vento cessou, a música também e ela parou de dançar. Já era o suficiente. Sorridente e feliz, agradecia para a lua cheia.
   Resolveu descer a montanha, deixou o sino pendurado e seguiu caminho de volta. Andando despreocupada, pisava sem perceber que fazia barulho e não se preocupava mais com os barulhos das cobras. Então, em meio a escuridão, ela viu um par de olhos, estes que não eram de humanos, mas sim de felinos. A criatura mostrou seus brancos dentes e afiados. Assustada, correu em direção oposta, a fera a seguia. Chegou ao mesmo penhasco de antes e não tinha mais para onde correr, a fera apareceu andando silenciosamente e olhando atentamente para sua presa.
   Entre a escolha de não sofrer, resolveu pular do penhasco. Durante a queda, ela ouviu a voz de seu amado, desta vez era claro a mensagem que dizia “perdoe-me”. Foi o tempo de ela sorrir uma ultima vez, dizer “sim” para si própria e morrer fincada nos pontudos galhos dos eucaliptos. O odor de sangue se misturou com o de eucalipto e o vento o levou até o homem que a fizera sofrer. Este, criou um perfume que imitava o cheiro e o apelidou de “Lua Vermelha”. 
 

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Comentários:

Ameei!

Yuri Monaschi | 13/07/2011

Muito, muito, muito bom mesmo! Parabéns! *---------*

Lindíssimo!

Thais | 12/07/2011

Lindo mesmo! Pude ver claramente os detalhes da montanha, a dança e até o cheiro dos eucaliptos! :)

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