Desmemoriado

 
   Em um apartamento pequeno, de um único cômodo, com o colchão no meio, uma cozinha improvisada e um banheiro do outro lado. Sofá perto das janelas que tinham vista para a cidade cheia de retângulos de tijolos. Cortinas balançavam com o forte vento que entrava. Um homem com uma garrafa de Red Label vazia nas mãos se encontra deitado no sofá, olhando para o teto branco de seu apartamento.
   Bêbado e sem equilíbrio, se pergunta como chegara a tal situação. Como acabou daquele jeito e o que o fez ficar ali. Poderia ir mais fundo? Poderia se acabar mais um pouco só para confirmar que estava sem esperança alguma? Sem mais um gole na garrafa, a joga na parede e ela se despedaça em centenas de partes.
   Aquele teto o incomodava tanto, aquela palidez toda. Parecia que faltava algo, como em sua mente. Ele se levantou com certa dificuldade para manter o equilíbrio, pegou uma caneta do chão e depois subiu no sofá e, ainda meio tonto, começou a desenhar no teto. Fazia traços circulares que se transformavam em espirais e ficou rabiscando até ficar sóbrio.
   Quando sentiu que não havia mais o porquê rabiscar, deitou novamente no sofá e olhou seu desenho. Sem intenção nenhuma, todas aquelas curvas e espirais davam formas a um coração com aves sobrepostas umas às outras dentro dele. Seria aquele o sinal do motivo por ter chegado àquele ponto? Talvez sim e talvez não.
   A falta do que não tinha e do que nunca teve gritava em seu coração, mas sua mente questionava como ele poderia sentir falta de algo que nunca teve. Ou ele esquecera o que um dia já teve para o seu próprio bem? Difícil de fazer sentido com uma ressaca aparecendo.
   Não era ressaca de bebida, era de sentimento. Ressaca que faz o coração doer, como se milhares de agulhas o perfurassem, como se a cada batida ele fosse explodir e como se cada respiração fosse um motivo a menos para continuar vivo. Com a mão esquerda sobre o peito, apertando forte como se quisesse fazer a dor parar, vai ao chão e rasteja por alguns metros.
   O coração sentia falta do que foi feito para sentir. Era como se alguém tirasse algo dele sem perceber. Sentiu-se triste, foi quando chorou. Lágrimas saíram por dó de si mesmo.
  À medida que a noite ficava mais escura, mais a dor aumentava dentro de si e mais patética era a situação.
   Sem saber, a dor que trazia agito, trazia também calma, e a ilusão do sonho apareceu. Sem notar, o sol surgiu e iluminou o apartamento, ainda em sono profundo. No chão ficou até depois do meio dia.
   Devagar, foi sentindo o cheiro de Red Label que permanecia nos restos da garrafa e o fez acordar. Descabelado, sujo e acabado, ergue-se e olha o rastro de destruição que fizera na noite passada. Olhou novamente seu desenho e uma das aves lhe chamou mais atenção que as outras, esta parecia querer voar, ser livre.
   O telefone tocou, olhou para o relógio e viu que estava atrasado para o trabalho, então deixou tocar. Foi até a janela e olhou para o céu azul. Abriu os braços e sentiu o vento batendo em seu corpo, sentiu calma e depois suspirou. Ele ainda não sabia se a noite passada ficaria em sua memória. Seria bom ele se lembrar da dor que sentira? Não sabia se seu coração sentia carência ou intensidade.
   A dor foi intensa, mas ela teria passado como um simples desejo realizado ou voltaria como um sonho inacabado? Carência e intensidade, qual a sutil diferença entre eles? Carência termina e vira passado, intensidade é constante e te move para o futuro, carência se contenta com restos enquanto a intensidade nunca se contenta. Talvez seja a mesma diferença entre desejo e sonho.
   Talvez a dor tenha sido carência de algo que seu coração queria intensamente. Como um coração é intenso por si só, a cada carência era uma ave a menos, pouco a pouco seu coração foi ficando mais vazio, até só restar um único par de asas. Seria aquele resto de dor a solidão de um único desejo? Seria aquele desejo intenso o suficiente para trazer vida a ele? Sua vida seria destinada a ficar com restos ou a infinidade daquele sentimento o faria completo?
   Questões e mais questões vinham em sua mente, bombardeando sua cabeça como uma guerra até perceber que seu coração não queria mais viver de carências, que viver de pedaços não é viver por completo. Seu coração sentia falta do que nunca teve: intensidade.
   A tarde passou e a noite chegou, ele abre mais uma garrafa de Red Label e começa a beber, olhando para a cidade que fica caótica com a chuva que chega, pássaros voam para todos os lugares e em todas as direções, no que parece ser um tumulto tomando conta do céu, ele apenas toma mais um gole e depois outro até cair bêbado no sofá e esperar pela ressaca daquela noite. Talvez a dor se esquecesse dele como ele se esqueceu de seus sonhos, talvez não.

 

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