Humilde Diamante

 

 
Em um quarto espaçoso e vazio, de quatro paredes rusticas e antigas, dois amigos discutem os preparativos de uma festa:
   - Aqui pode ficar o bar.
   - Pensei que o bar ficaria na sala.
   - Para que são estes furos nas paredes?
   - É para entrar luz, antigamente não tinha energia elétrica, ai eles faziam alguns buracos nas paredes para entrar luz e circular o ar. É comum em fazendas antigas, como esta.
   Um dos amigos olha através de um dos buracos e percebe que a parede não é tão grossa, depois vê as árvores balançando e em seguida um barulho que o assusta. Ao olhar para trás, vê a enorme porta de ferro fechada. O outro amigo tenta abri-la, mas não consegue, parece estar emperrada ou ter algum problema do outro lado. A maçaneta de ferro não ajuda e os dois se veem trancados dentro do quarto.
   Sem sinal no celular, os dois tentam pensar em uma maneira de sair dali. Mas não havia nada naquele quarto, ele estava vazio. Um dos amigos questiona:
   - Por que uma porta de ferro?
   - Não tenho certeza, mas pode ser aqui que alguns animais eram mantidos em cativeiro, não sei ao certo.
   - A fazenda é da sua família e você não a conhece direito?
   - Eu não venho muito aqui, ou você pensa que eu enfrento mais de trezentos quilômetros toda a semana para visitar uma fazenda velha?
   - Não importa, você nos trouxe aqui, agora terá de tirar.
   - Mas quem está procurando local para fazer a festa é você, eu te faço o favor de te trazer até aqui, eu não fui trabalhar hoje, estou perdendo dinheiro e é assim que você me agradece?
   - Eu tenho uma festa para ir hoje, daqui a pouco é de noite e eu tenho que sair daqui.
   - Vamos dar um jeito! Calma.
   Além de socos e chutes, os dois tentam por horas arrombar a porta, mas sem sucesso.
   Um dos amigos vai até a porta e tenta analisa-la cuidadosamente, buscando por uma brecha para abri-la. O outro, retira de seu bolso um canivete e revela sua lâmina afiada, caminha cuidadosamente até o amigo, que não percebe sua aproximação, então ergue o canivete e enfia no vão entre a porta e a parede, força uma abertura, mas não obtêm sucesso.
   Além de um pequeno susto, o que examinava a porta não acredita na ideia do amigo e cogita repetir a mesma ação, mas com algo mais forte que um canivete:
   - Não há nada aqui dentro que nos ajude, não há sinal, nenhum instrumento, além do seu canivete, já tentamos de tudo para abrir esta porta e nada, se não fizermos algo, ficaremos presos aqui para sempre.
   - E o que você sugere?
   - Deixe-me quebrar uma costela sua para tentar fazer uma abertura na porta.
   - Você é louco?
   - Você que nos trousse para cá, a fazenda é da sua família, se tem alguém culpado aqui é você, eu ainda estou tentando nos tirar daqui. Você tem várias costelas, não é a falta de uma que você vai morrer e elas também não são de motivos realmente vitais para o nosso organismo. Pode ser a única maneira de sairmos daqui.
   - Está bem então, mas só uma!
   Com o canivete, o amigo faz um corte na lateral do tórax do outro, coloca a mão dentro e puxa, com toda a força uma costela. O amigo não dá nenhum sinal de dor, não geme e nem reclama.
   Com a costela na mão, ele a finca no vão entre a porta e a parede e então força, ela chega a mexer um pouco, mas o osso quebra e a porta continua emperrada. Descontento, o amigo parte para ideias mais absurdas:
   - Se pudéssemos afrouxar e lubrificar a porta para ela se movimentar mais facilmente... Já sei, me empresta uma parte do seu estômago.
   Com as mãos cobertas de sangue, tentando estancar o sangramento, o amigo hesita:
   - Não, pra que?
   - O suco gástrico pode servir como ácido e lubrificante, um monte de gente faz redução de estômago, cortam ele pela metade, não faz mal nenhum eu cortar uma parte dele para retirar um pouco deste líquido.
   - Bom, se esta pode ser a única maneira...
   Ele abre com o canivete a barriga do amigo, retira o estômago e o corta quase na metade, depois ele passa o liquido pela porta inteira, espera um tempo para tenta novamente, agora com a porta escorregadia, o osso não finca no vão:
   - Não está funcionando, precisamos de uma corda, algo para amarrar na maçaneta e puxar. O seu intestino. Só um metro.
   - Já estou sem metade do estomago mesmo...
   Ele corta com o canivete cerca de um metro do intestino do amigo, amarra na maçaneta e então tenta puxar com toda a força, com algum sinal de que ela se moveria, o intestino arrebenta e o plano falha, mais uma vez. Deitado no chão, para poupar energias, com as mãos ensanguentadas, mesmo sem gemer e reclamar de dor nenhuma, o amigo parece estar positivo e até sorri algumas vezes, enquanto o outro se descabela e pensa em engenharias cada vez mais assassinas.
   Olhando para os buracos na parede, tenta medir a espessura da parede e cobiça derruba-la:
   - Se cada ponto se ligasse em uma rachadura, com poucas batidas ela cederia, mas para isto, preciso de uma bomba... Preciso do seu coração.
   O amigo não responde nada, seus olhos ainda se mexem, demonstrando um sinal de vida, mas ele fica parado no chão:
   - Bom, como já faz um tempo que você não diz nada, vou pegar mesmo assim.
   Ele corta as artérias com o canivete e retira o coração, este que ainda pulsa, coloca-o dentro de um dos apertados buracos da parede e se afasta. Com o pulso, o coração exerce pressão sobre a parede e a primeira rachadura aparece, depois outra e então o amigo se joga com toda a força e a derruba.
   Ele comemora sozinho a conquista da fuga:
   - Isso! Vou conseguir chegar a tempo para a festa! Bom, você sabe onde me encontrar se precisar de algo, vou pegar o seu carro emprestado também. Até mais. Amanhã conversamos sobre o local da festa, mas acho melhor procurar outras opções.
   Ele vai embora, deixando o amigo no chão e o coração ainda pulsante entre os tijolos. A noite fria chega e enfim os lobos aparecem. Nenhuma dor é demonstrada, nenhum grito é solto e nenhuma lágrima é derrubada, apenas um pensamento masoquista de que tudo ficaria bem. 

 

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