La Dance

 

 

   Saindo do trabalho, Marcelo sempre tomava um cafezinho em um restaurante antes de voltar para casa. Empresário, todo educado e correto, rotina sem mudança por anos e uma vida que poderia ser chamada de cinza. Seu trabalho ocupava quase todo seu tempo, afastando assim amigos e familiares. Naquele dia que parecia ser como qualquer outro, Marcelo se deparou com algo estranho ao olhar para a rua, uma mulher vestida inteiramente de amarelo dançava pelas ruas sem nenhuma inibição. Chamava a atenção de todos e não parecia se importar, ela parecia flutuar na calçada e era muito bela também. Seus movimentos denotavam grande energia e vida, lindo de se ver e melhor ainda quando sentia o ritmo da música em seu corpo. Se foi dançando e desapareceu. Marcelo voltou ao seu cafezinho, teve um leve sorriso e depois se fechou novamente. Voltou para casa e lá descansou.
   No outro dia, no caminho para o trabalho, ligou o rádio do carro e uma música começou a tocar, ele não a conhecia e lhe parecia um tanto estranha, lembrou daquela mulher dançando, começou a se questionar sobre a vida que a moça levava, se ela trabalhava de verdade e de onde ela tirava tempo para sair dançando como uma louca pelas ruas da cidade. Levou um susto com a buzinada de um carro que lhe avisara sobre o semáforo verde. No trabalho, não conseguia se concentrar direito, se sentia estranho e vazio, nada parecia fazer sentido, apenas estava fazendo as tarefas do emprego, da mesma maneira de todos os dias.
   No final do dia, ao ir para o restaurante tomar seu café, foi com grande esperança de ver algo novo, algo fora do comum, talvez rever aquela mulher maluca seria um ótimo acontecimento. Sentou-se e fez tudo como o de costume, mas desta vez olhando fixamente para a rua. Tomou um café, tomou o segundo, depois um terceiro e nada aconteceu. Levantou e pagou a conta, percebeu que nada aconteceria e que foi burrice pensar que aquele estranho evento aconteceria novamente. Dentro do carro, dirigindo de volta para casa, ao parar em um semáforo, viu de longe um homem vestido de azul dançando pelas ruas, não havia como negar que ele fazia parte do mesmo evento, tinha as mesmas expressões de movimentos que a moça, ele se foi dançando e desapareceu.
   Algo novo, algo diferente. Marcelo ficou contente, admirou o momento por um tempo. Chegando em casa, não foi ligar a TV pela primeira vez durante muitos longos anos, colocou música para ouvir e deitou no sofá, refletindo sobre as duas pessoas insanas que tinha visto, queria saber quem eram e para onde iam depois.
   Logo na próxima manhã, Marcelo sentiu algo diferente em si próprio, não sabia o que era e nem o que tinha acontecido para se sentir assim, mas sabia que algo tinha mudado, apenas não sabia da magnitude da mudança. Ao colocar o terno cinza que vestia todos os dias, percebeu que não fazia o menor sentido ele ir com aquele uniforme, então abriu o armário para ver se vestiria algo diferente e tudo o que viu foi roupas quase iguais, todas da cor cinza. Procurou, mas não achou nada que lhe fizesse sentir um pouco diferente, suspirou leve e saiu para trabalhar, sem trocar de roupa. 
   Ao longo do caminho para o trabalho, Marcelo dirigia escutando música, ao tirar o olho da rua e olhar para o lado, viu uma loja de acessórios, tinha apenas dez minutos para chegar na empresa, estacionou o carro na frente da loja e entrou, algo fazia-o não se importar com o tempo. Era uma loja pequena, mas com um grande número de produtos. Olhou atônito para uma luva vermelha, chegou perto e a colocou, olhou para as suas mãos e resolveu não tirá-las mais.
   Conseguiu chegar a tempo na empresa, até estranhou, fez tudo com tanta tranqüilidade que pensou que chegaria atrasado. Em seu escritório, Marcelo olhava para suas mãos envolvidas pelo par de luvas e os pequenos movimentos que fazia, como assinar documentos, digitar, pegar algo e até escrever. Suas mãos parecias desenhar formas no ar a cada gesto, ele não parava com as mãos quietas e quando percebeu, já tinha terminado todas as tarefas programadas para aquele dia.
   Sem ter o que fazer, olhou pela janela de seu escritório, viu a cidade do alto, tudo era cinza, os prédios, as ruas, as calçadas, as roupas das pessoas que andavam e até o céu estava cinza pela poluição.
   Algo lhe atraiu o olhar, uma mulher vestida de vermelho dançava em uma das ruas perto das empresa, não pensou e quando se viu, estava dentro do elevador rumo a moça, saiu do prédio e seguiu os olhares das pessoas até encontrá-la e vê-la dançando. Esta, encantou Marcelo acima de tudo, tão linda e cheia de vida, parecia um belo pássaro ao se mover, saltava e fazia piruetas com tanta facilidade que parecia ser fácil.
   Resolveu segui-la, não tirou o olho dela nem por um instante e não se importava com o tempo, nem com a empresa, nem com as pessoas que reparavam em suas luvas vermelhas. Antes do sol se por, ele a seguiu até uma rua que parecia não ter ninguém, era uma rua estranha que ficava ao lado de um velho cemitério, por surpresa dele, a moça entrou nele e de lá a perdeu de vista.
   Andou para trás e até virou de costas para os enormes portões demonstrando toda sua confusão, não entendia porque ela tinha entrado lá. Marcelo nunca tinha entrado em um cemitério antes, nem na morte de seus avós ele foi por motivos de trabalho, tinha medo e rejeitava aquilo. Foi quando viu o homem de azul chegando, entrou no cemitério também, Marcelo foi espiar e viu que o homem atravessou tudo e pulou o muro do fundo que dava para uma floresta, o cemitério estava vazio, logo deduziu que a mulher também havia pulado aquele muro.
   Respirou fundo, entrou lentamente e foi dando poucos passos por vez, olhava os túmulos com medo e ficou atento a cada barulho. Um pássaro cantou, ele olhou e o pássaro voou, Marcelo parou quase que no centro do cemitério, não havia nada ali a não ser ele. Não tinha o que temer, nem com o que se preocupar, assim continuou a caminhada de maneira mais confiante e direta até o muro. Ele não conseguiria pular, não tinha habilidade nenhuma, saltava para ver se conseguia observar algo e não tinha sucesso. Sem saber como atravessar o muro, já pensava em desistir, ao olhar para trás, a mulher de amarelo vinha correndo em direção ao muro, ela saltou, colocou um pé na parede e se impulsionou para o alto, colocou as mãos no topo do muro e assim se impulsionou para o outro lado.
   Marcelo resolveu imitar, se afastou para pegar impulso, correu, pulou e conseguiu colocar as mãos no topo do muro, ficou pendurado por um tempo e depois foi escalando com o pé pouco a pouco até conseguir se sentar em cima do muro. Ao conseguir finalmente observar o que havia atrás do muro, as árvores da floresta atrapalhavam a sua visão de algo que acontecia mais a frente. Ao olhar para baixo, viu a moça vestida de vermelho olhando para ele, não exatamente para ele, mas sim para as mãos dele, para as luvas que ele usava. Ela saltou em sua direção, agarrou as mãos de Marcelo e o puxou para baixo com ela, ele caiu de cara no chão e ela em pé.
   Levantou-se e viu que a moça estava um pouco mais adentro das árvores olhando para ele, como que se ela quisesse demonstrar o caminho. Algo fazia Marcelo não temer, fazia com que nada se importava a não ser o momento que ele vivia agora. Ele começou a segui-la, ela dançava dava vez mais velozmente de maneira que Marcelo as vezes a perdia de vista e quando não conseguiu mais vê-la, apenas continuou correndo na direção em que estava. Parou ao chegar perto de uma clareira, estonteado com o que via, parecia não acreditar. Centenas de mulheres e homens vestidos de diversas cores estavam dançando conjuntamente, nenhuma música tocava, mas eles não paravam de dançar, as misturas de cores e movimentos pareciam se misturar e se tornar um só a ponto de parecerem um quadro, as vezes pareciam contar uma história e outras ainda pareciam flutuar pelo gramado.
   As pessoas que dançavam, pareciam desenhar formas no ar, parecidas com aquelas que Marcelo fazia com suas mãos no escritório. A mulher de vermelho apareceu de trás de uma árvore mais a frente e foi em direção a Marcelo, pegou suas mãos e disse olhando em seus olhos:
   - A vida é uma dança que não foi feita para ficar parada, confie na vida que ela confiará em você.
   Ela o puxou para o meio da dança e lá, no meio de tanta gente desconhecida e desinibida, começou a desenhar formas com suas luvas, logo seus pés se moviam também e pouco a pouco, Marcelo foi se tornando parte do que parecia ser uma pintura em movimentos.
   No cair da noite, as diversas pessoas que dançavam, começaram a voltar para a casa, pouco a pouco a floresta se esvaziou. Ao chegar em casa, Marcelo sabia que estava cansado, mas não queria parar de dançar, não que ele soubesse, mas fazia o que o corpo pedia e era levado para onde os pés o levava, sorria demonstrando felicidade e já notava uma certa leveza em seus movimentos. Ele se sentia bem, demonstrava isto com extrema clareza. A campainha tocou, ele estranhou, não que já era tarde, mas sim que alguém estava a sua procura. Abriu a porta e a mulher de vermelho estava parada do outro lado da porta. Um pouco envergonhado e sem saber o que dizer, lhe pediu para entrar.
   Na sala, os dois conversavam, Marcelo tentava esclarecer todas as suas dúvidas:
   - Há quanto tempo você está nesta?
   - Duas semanas. Nem acredito como tudo aconteceu tão rápido. Minha vida era tão monótona, chata, penso que nem poderia ser chamado de vida aquilo.
   - Duas semanas? Mas você aparenta dançar tão bem que pensei que já estava por mais tempo... Qual a sua profissão? Qual o seu nome? Como me encontrou?
   Ela riu alto:
   - Você me seguiu primeiro! Desculpe não ter me apresentado, me chamo Anabella e sou advogada.
   - Advogada?
   - Sim, mas depois que eu aprendi... Ah... Eu não tinha idéia sobre o que era vida, só trabalhava e trabalhava. Agora, não sei o que eu faço é trabalho, parece brincadeira, não saio da empresa cansada, faço tudo com tanta energia que gosto do que faço, tudo flui. Eu não me preocupo mais com nada, nem com o dinheiro, nem com o tempo. Eu só quero é dançar, o resto vem por conseqüência e é tudo coisa boa.
   - Como assim? Depois que você aprendeu o que?
   - A dança. Aprendi a viver. Pare e pense, a vida é de certa forma, uma dança. Se você para de dançar, não chega a lugar nenhum, fica estagnado no tempo, se você dança exageradamente, pode se machucar feio se perder o equilíbrio de um movimento. A dança é para ser seguida de acordo com o som da música, não adianta você dançar salsa escutando música lírica.
   - Mas na floresta todos dançavam e não tocava nenhuma música...
   - Sim, tocava sim. As batidas do seu coração é a maior música de todas. Quando a música para, você para de dançar. Na clareira, todos os tipos de movimentos vêm de próprio corpo, como se algo empurrasse a gente, é não natural, tão espontâneo.
   - Sim, entendo, mas o que quis dizer quando falou que “o resto vem por conseqüência”?
   - Não adianta você se preocupar, a vida te dá, cedo ou tarde, tudo aquilo que você realmente precisa. É algo como aquela velha história: “O que é seu, está guardado”.
   - Mas por que a floresta? Por que uma floresta ao lado de um cemitério?
   - Eu me fazia estas mesmas perguntas quando seguia um homem de verde, depois eu entendi.
   Ela levantou-se e passou o dedo indicador em cima de uma prateleira na sala, voltou e sentou-se novamente mostrando o dedo para Marcelo:
   - O que você vê no meu dedo?
   - Pó.
   - Sim, e de que cor ele é?
   - Cinza.
   - De que cor é a cidade em que moramos?
   - Cinza.
   - Exatamente. Isto é energia estagnada, parada no tempo. As cores trazem vida, movimento, trazem a dança. A caminhada pelo cemitério é como se fosse um tipo de lavagem, você deixa lá tudo que é estagnado em você, tudo que já parou de dançar.
   Marcelo ficou um tempo sem dizer nada. Parecia entender a magnitude de uma mudança. Enquanto sua mente viajava por vários níveis da imaginação, percebeu o que acontecia dentro de si, escutava seu coração batendo. Já era tarde e amanhã era outro dia cheio. Despediu-se de Anabella e foi descansar.
   No outro dia, a primeira coisa que fez foi colocar suas luvas. Ao se arrumar para o trabalho, não pensou duas vezes em antes comprar roupas novas. Não foi em loja de ternos nem de roupas sociais, foi em uma outra qualquer, comprou tudo que era vermelho, se vestiu e foi assim para a empresa. Todos olhavam, reparavam e comentavam a mudança, alguns até o chamava de insano. Dentro do seu escritório, Marcelo parava para dançar diversas vezes. Quando recebeu um telefonema de seu chefe, o chamando para uma reunião inesperada.
   Na sala de seu chefe, se sentia um pouco envergonhado e intimidado enquanto o chefe arrumava os quadros de sua sala sem falar nada. Sem saber como reagir, procurava uma tentativa para sair daquela situação. Seu chefe sentou-se em sua poltrona e olhou para Marcelo, olhou sua roupa e logo disse:
   - O que você está fazendo?
   - Eu? Ah... Me disseram que o senhor queria me ver para uma reunião.
   - Sim, digo, o por que destas roupas? Por que vermelho? Onde está seu terno?
   - Então... Eu queria vestir algo diferente hoje, só isto.
   - Me disseram que você saiu mais cedo ontem...
   - Sim, eu terminei tudo o que tinha programado para ontem bem rápido.
   - E onde você foi?
   - Para onde eu fui? Ah... Eu fui sair com um colega meu de classe bem antigo.
   - Hum... Era só isto mesmo, pode voltar ao trabalho.
   Aliviado por não ter levado nenhum tipo de bronca e principalmente não ser demitido, levantou-se, agradeceu e antes de sair, o chefe se ajeitou na poltrona e colocou seus pés em cima da mesa, Marcelo olhou e viu que seus sapatos eram verdes.
   Ao terminar seu trabalho, Marcelo foi direto para o cemitério, depois de pular o muro, foi até a clareira e passou a noite dançando. Encontrou com Anabella e conversaram mais um pouco, combinaram de sair no sábado de manhã para dançar pela cidade. Não ficou muito seguro no início, mas depois aceitou a idéia. No meio de tudo aquilo que acontecia, ele se sentia bem, escutava as batidas de seu coração e só pensava em sentir aquela energia que o deixava tão vivo.
   Chegando sábado de manhã, Marcelo estava vestido de vermelho esperando por Anabella, quando ela chegou, os dois se entreolharam, ela segurou a mão dele, que estavam cobertas pelas luvas e os dois começaram a dançar, um complementando o passo do outro, unindo-se para fazer formas mais belas que as outras, as pessoas olhavam, estranhavam e os chamavam de loucos, mas Marcelo e Anabella sabiam que não era loucura, era outra coisa, mas não loucura. Talvez loucura seja ficar parado no tempo, talvez loucura seja não querer mudar, talvez loucura seja não viver e confiar na vida.
   

 

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Comentários:

La Dance

Gisa Alves | 09/06/2011

Um texto simplesmente maravilhoso e que tem tudo a ver com a nossa realidade.
Parabens Sunny!!!
Beijos,
Gisa.

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