Libra

 

 
   Minha cabeça dói, uma dor alucinante e quase constante, não sei o que é, ninguém sabe o que é. Houve momentos que eu perdi a consciência e acordei rapidamente, até que os tombos começaram a ficar mais constantes, comecei a demorar para acordar e perdi a noção do tempo e do espaço. Um dia, minha cabeça parecia querer explodir, perdia os sentidos alucinado em dor, então cai, algum tempo passou sem eu perceber e acordei.
   Não estava mais em meu quarto, acordei em outro lugar, ainda deitado no chão, olhava para um estranho céu. Chovia, mas não era água que caia, eram pensamentos e sentimentos em formato de penas, que desabavam com certa violência. Sem me mover, pouco a pouco fiquei coberto por elas. Minha cabeça voltou a doer lá mesmo e acordei do suposto sonho, no meu quarto, agonizei por mais uma noite.
   No outro dia, não consegui sair de casa. Tinha até medo de andar, perdia a consciência muito fácil, perigoso eu cair e bater a cabeça fortemente. Deitado no sofá, buscava a compreensão do que estava acontecendo comigo. Tombei novamente e acordei naquele lugar estranho, as penas ainda caiam, mas não havia silêncio, escutava uma discussão, parecia que alguém brigava, não entendia as palavras, parecia ser outra língua. Antes que eu pudesse me levantar para ver o que estava acontecendo, a dor voltou e me fez acordar novamente.
   Aquela imagem impregnou na minha mente, não sabia o que estava acontecendo comigo, tive medo de me considerar insano e de ficar louco. Por que esta dor de cabeça? O que há errado comigo? Não sei, apenas sinto vontade de chorar, de buscar por abrigo, procurar por uma cura.
   Tombo mais uma vez e volto para aquele lugar, finalmente me levanto e vejo ao meu redor que milhares e milhares de penas brancas e pretas cobrem o chão, o céu aparenta estar turbulento e confuso, vejo então duas pessoas brigando, olho novamente e vejo que são dois de mim, o mesmo corpo e a mesma face, um com penas brancas ao redor da cabeça e com a letra Alpha desenhada no corpo, o outro com penas pretas e a letra Ômega desenhada.
   A cada soco dado, uma pontada atinge minha cabeça. Depois de um tempo, ficou claro que a minha dor tinha alguma ligação com aquela briga. Me aproximei pouco a pouco, tomando cuidado para não pisar nas penas, fui silencioso e curioso. Os dois pararam a luta ao olhar para mim, se afastaram e caminharam em sentido oposto.
   Algo me chamou a atenção no chão, alguém estava deitado ali, caído, parecia estar morto, não consegui ver a face, apenas os olhos fechados. O que havia acontecido ali? Não sei, mas algo me dizia que eu precisava descobrir.
   Primeiro fui até o “eu” com penas brancas e antes que eu fizesse qualquer pergunta, ele me olhou nos olhos e por um instante nos encaramos. Então ele retirou uma pena branca de seu chapéu e me entregou, ao encostar em sua mão eu senti um leve alívio da minha dor, a pena trazia consigo os pensamentos que, uma vez, eu já havia abandonado, razões do passado, filosofias que tinha esquecido.
   Fui então até o outro “eu”, o com penas negras. Mas ele não me olhou, escondia a cara e o olhar, então, já que ele não me daria uma pena de seu chapéu negro, eu mesmo roubei uma. Imediatamente caí em prantos e desabei em choro, minhas forças sumiram e o corpo cedeu por completo. Sentimentos do passado, tão avassaladores e convulsivos. No chão, finalmente ele me olhou e retirou aquela pena negra de minha mão e então me entregou outra. Minha dor de cabeça desapareceu, finalmente eu estava curado.
   Consegui me levantar, estava tranquilo, calmo. Uma leveza estranha. Não chovia mais pena alguma. Então eu vi aquele homem, que parecia estar morto, se levantando do chão. Me aproximei e vi que era um outro “eu”, com penas brancas e pretas ao redor da cabeça. Ele me abraçou e disse:
   - Obrigado por me salvar
   Estranhei e perguntei:
   - Mas eu não fiz nada por você.
   - Por mim você não fez nada, mas você fez a si mesmo. Você se perdeu em confusões e se esqueceu de si. Pensamentos e sentimentos são como penas, com a quantidade errada, você não sai do chão, mas com a quantidade certa, você pode voar. Uma razão para um sentimento. Equilíbrio, a arte da contradição correta.
   Acordei de repente, como se tivesse levado um susto. Sem compreender as palavras que vieram de mim mesmo. Minha dor de cabeça havia realmente passado, ainda bem. Fui até a janela olhar o sol, céu azul, dia bonito. Me senti leve e alegre, parei para pensar o por que de tais sensações. Foi então, quando compreendi as palavras.
   “Se somos livres para voar dentro de nossas mentes, por que ficar preso ao chão? Ter medo e não conhecer é natural, ter coragem e saber também é natural. Estava tão preso ao cotidiano, ao mundo que nos força sempre ficar com os pés no chão que eu esqueci de voar pelos céus sem limites da minha mente. Alpha é razão, Ômega é sentimento e o alfabeto inteiro é nosso corpo, uma letra fora do lugar e a balança desmonta”. 

 

 

 

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Comentários:

Libra

Dilene | 15/10/2011

Parabéns, querido! Incomodada!

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