O Voo da Harpia

 

 

   Como o prateado da lua e o dourado do sol, a luz do dia e o escuro da noite, a Harpia pode ser o monstro do seu pesadelo e a realização dos seus sonhos ao mesmo tempo. Calista nasceu bela e perfeita, com asas douradas e voz doce e perolada, conseguia cantar belamente e voava solitária entre as formações rochosas perto da costa grega. Diferente de suas oito irmãs, Calista apenas queria ser poetisa, queria ser sonho realizado.

   Todas as manhãs ela sobrevoava a cidade ao norte em direção as montanhas altas, lá esperava o sol nascer e cantava sua bela canção. Em uma dessas manhãs, enquanto cantava, se assustou ao ouvir um barulho de galho quebrando, virou-se e viu que um homem presenciava a cena, assustada, abriu suas asas e se preparou para fugir, mas o homem quis impedir:

   - Não vá, por favor, fique. Desculpe se atrapalhei, não era a intensão, apenas queria saber de quem era a bela voz que escutava.

   Calista olhou para o homem com curiosidade, não tão assustada, resolveu ficar e perguntou:

   - Há quanto tempo me observava?

   - Não por muito tempo que cheguei, mas ouvi o bastante para me enfeitiçar.

   Envergonhada com os elogios, ela começa a repara no rapaz jovem, percebe que é bonito e agrada muito aos olhos, querendo retribuir a gentileza, pergunta:

   - Quer que eu continue?

   - Sim, claro, por favor.

   A luz do sol começa a surgir lentamente e Calista volta a cantar na presença do rapaz. Revelando a beleza do oceano, da cidade e das montanhas, o sol surge como milagre. Suas asas douradas brilham com a luz e se releva como harpia. Ao termino do canto, ele comenta:

   - Nunca ouvi algo tão belo, posso voltar amanhã para ouvi-la novamente?

   - Amanhã, sim, claro. Pode vir quando quiser.

   O rapaz sorri e faz um sinal positivo com a cabeça, depois se vira e volta pelo mesmo caminho de onde veio. Calista ergue voo e vai para a praia, voar entre as formações rochosas, fazer aquilo era quase rotina, mas este dia, parecia ter algo diferente, algo a mais, sentia-se mais leve e sorridente, a brisa favorecia as manobras, era simples, mas parecia ser especial ao mesmo tempo. Mesmo sem saber o que aconteceria amanhã, ela acreditava que seria um bom dia.

   Na manhã seguinte, a cena se repetiu, ele assistiu com olhar apaixonado e ela cantou com voz amorosa. A cada dia que passava, o sol parecia nascer mais brilhante, parecia que o sol só nascia para eles. Algumas vezes eles conversavam, ficavam cada vez mais amigos e próximos.

   Naquele mesmo dia, notando um brilho no olhar de Calista, uma de suas irmãs perguntou:

   - Apaixonada por quem?

   Assustada com a investida da irmã, responde desconfiada:

   - Ninguém.

   - Você não é muito inteligente Calista, se esqueceu de quem é? Uma Harpia não pode ser só sonho, ela é pesadelo ao mesmo tempo. Não há como escapar, você o fará sofrer.

   - Posso ser Harpia, mas não sou como vocês! Não sou um monstro!

   - Esta é a parte que você se engana.

   Calista foge, irritada com a irmã e consigo mesma, sentia-se presa ao destino, não queria ser aquilo. Negava fortemente quem era e desejava ser humana. Chegou até a cogitar cortar suas asas, mas de nada fez, apenas chorou escondida entre as rochas da praia. Percebeu que a única coisa pela qual vivia era sua nova amizade, vivia por aqueles bons momentos ao lado do rapaz.

   Na manhã seguinte, cantou com voz chorosa, o rapaz percebeu que havia algo errado e não hesitou em perguntar:

   - O Que houve Calista? Por que o som triste?

   - Nada, apenas não estou muito bem hoje.

   - Não é isto que seus olhos dizem, você andou chorando...

   - É que... Não sei como dizer, mas eu te amo.

   O rapaz se levanta e se afasta um pouco, caminhando para trás. Meio assustado, diz:

   - Mas eu sou humano, eu gosto da sua voz e da sua companhia, mas não podemos ficar juntos, você é uma Harpia, você é um monstro. Não posso te amar.

   Ela se levanta e se aproxima do rapaz olhando fixamente, ergue suas garras e ameaça arranha-lo iludida por sua fúria, mas lembra das palavras de sua irmã, hesita por alguns instantes e foge. Sozinha em uma caverna perto do mar, mas onde a claridade do sol não chegava, ela entra em desespero e nega quem é, tenta procurar uma solução, pede por um milagre aos deuses e só uma saída é revelada, fazer um pedido à Moneta.

   Logo de noite, foi confiante ao recinto de Moneta fazer o pedido, desejou o amor do jovem que ela amava e nada mais. Na manhã seguinte, foi à montanha cantar para o sol, viu de longe que o rapaz estava lá, esperando sua chegada. Ao pouso, um susto, o jovem possuía asas e tinha forma de Harpia, com lágrimas nos olhos e enfuredico, ele pergunta:

   - Você me fez assim? Podemos ficar juntos agora, somos dois monstros.

   Arregalando os olhos, negou a consequência de seu pedido, não era para ele virar Harpia, mas sim para ela virar humana, estava errado. Fugiu de lá, voava o mais rápido que podia para bem longe, acreditou ter se tornado pesadelo, se viu como Harpia pela primeira vez na sua existência. Como ela amaria a prova de quem era se negava sua forma? Não cogitou mais ser humana, não cogitou cortar as asas, cogitou a morte, cogitou o fim de sua eternidade. 

 

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Comentários:

O voo da harpia

Paulo Roberto | 20/04/2017

Encontrei este site por um desses acasos da vida... texto brilhante, de certa forma perturbador... Parabéns...

Que triste

Thais | 30/09/2011

Muito bom e muito triste, pra variar...rsrsrs

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