A Fuga do Dia

 

 

   Sempre que o sol atravessava o horizonte, arrepios e uma sensação de medo inquietava seu corpo. Antes que a escuridão tomasse conta e a noite chegasse por completo, ele já estava em casa, com todas as luzes acesas. Apavorado pela sensação de conhecer a escuridão, nunca saia de noite e dormia no seu quarto completamente iluminado por lâmpadas.
   Às vezes olhava pela janela, via as pessoas andando calmamente pelas ruas, sem nenhuma preocupação ou medo, ele não era capaz de entender a simplicidade envolvida naquilo e rejeitava tal situação como repulsiva e insana. Outras vezes ele não queria ter medo de ir lá para fora, queria ser normal como aqueles loucos que andavam tão despreocupados em meio à escuridão, se pegava imaginando como seria, teve uma vez que ele se arrumou e decidiu que iria sair, mas seu coração disparou logo quando tocou na maçaneta da porta para abri-la, girou lentamente e quando a abriu levemente e viu a escuridão lá de fora, bateu a porta e a trancou novamente. Achille nunca tinha enfrentado a noite.
   Por volta de seus trinta anos indignava-se com um medo tão besta, não trabalhava depois das seis da tarde e nunca saíra com os amigos. Passava doze horas em casa e não saia até que o sol iluminasse o céu. Mesmo com tantas tentativas falhas, ele só tinha duas opções em sua vida, encarar ou fugir. Já que não conseguia de jeito algum enfrentar, resolveu assumir o medo e passar a vida fugindo da noite, viajaria contra o tempo, contra a escuridão, rondaria o mundo todos os dias, seguindo a luz do sol onde ela fosse.
   Claro que não seria tão simples assim, lhe custaria muito caro passar o resto da vida assim, mas decidiu que iria fazer mesmo assim, nem que por menos de um ano. Retirou todo o dinheiro do banco, tirou passaporte, documentação, horários e escalas, tudo na ponta do lápis e planejado para viver uma vida onde só houvera dia. Pediu demissão do emprego, comprou todas as passagens e seguiu direto para o aeroporto. Não avisou ninguém, seria somente ele e quem mais ele conhecesse nas viagens, mesmo sem saber a língua de alguns países, principalmente os da Ásia, não se importou, já que ficaria pouco mais que uma hora em cada lugar.
   Pegou seu primeiro voo, rumo a Oeste, Passou pelo Chile, depois para a Nova Zelândia, seguida de Austrália, Índia, Egito, França e Estados Unidos, assim continuaria dando voltas e mais voltar ao mundo. Não era difícil ajustar o relógio biológico, pois já estava acostumado dormir no claro. Era uma loucura pegar os voos, chegar aos aeroportos no horário do check-in, era uma correria e muitas horas dentro dos aviões, mas não sentira mais medo. Estava longe da única coisa que fazia seu coração acelerar, tinha completa ciência de que fugia, mas não estava prejudicando ninguém e muito menos a ele, então estava tudo certo. Pelo menos era isto o que ele pensava.
   Com o horário de comer e dormir completamente desregulado pelas viagens, uma vez dormiu um pouco mais no quarto de hotel de onde se hospedava e quando acordou, no susto, estava atrasado para pegar seu próximo voo. Saiu correndo direto para o aeroporto, mas não chegou a tempo, o avião já tinha partido. Ele foi direto ver se conseguia trocar a passagem para poder embarcar o mais rápido possível para o Oeste, embora todos os voos estivessem lotados, havia um apenas disponível no fim da tarde.
   Logo sentiu alguns arrepios, pois o final da tarde seria a hora crucial para a chegada da noite e a volta de seu medo. Pegou sua mala e ficou esperando no aeroporto, tomando café e lendo algumas coisas, bem de frente para a janela, para ver a posição do sol e a cada centímetro que ele se aproximava do horizonte, suas mãos suavam e sentia seu coração acelerar. Ao ver no quadro de informações que seu voo se atrasaria, foi direto fazer reclamações para que pudesse sair logo dali, sem sucesso, teria de esperar.
   Longe das janelas e olhando para o relógio, viu o ponteiro atravessar as dezoito horas da tarde do horário local e ficou no hall mais iluminado que encontrou. Achille podia sentir que a noite tinha chegado e que a escuridão rondava aquele lugar. Inquieto, começou a andar pelos halls de espera, via pelas janelas que já estava escuro e que seu voo já se atrasava mais de uma hora. À medida que a noite passava, as luzes do aeroporto diminuíam e ficava mais escuro.
   Na inquietante caminha em busca de um lugar mais iluminado. Sem querer, esbarra em uma moça, o que a faz deixar cair a mala. Ele se inclinou pedindo desculpas e pegou a mala, já ela, notou que ele não passava bem e resolveu perguntar:
   - Está tudo bem contigo? Você precisa de ajuda?
   - Não, eu estou bem, e só uma coisinha que eu estou sentindo. Meu voo atrasou e não posso mais esperar.
   - Compreendo, mas porque você não se senta? Você parece estar muito ansioso, procure se acalmar.
   - Eu irei, obrigado. É que... Nada não, esquece...
   - Pode falar! Posso te ajudar em algo? Está esperando voo para onde?
   - Para a Inglaterra, mas ele está bem atrasado.
   - Você mora lá?
   - Não.
   - Vai a negócios?
   - Não.
   - A passeio então... Já viu Londres de noite? É tão linda.
   - Também, não. Só vou para lá porque está de dia, a verdade é que não gosto da noite e resolvi passar a minha vida correndo para onde o sol esteja presente.
   - Mas isto é inacreditável...
   - Eu sei...
   - Não, eu digo que é uma coincidência e tanto!
   - Por quê? Você também tem medo da noite?
   - Não, o contrario, tenho medo do dia. Estou fugindo dele, acabei de chegar da China. Venho seguindo a noite por cerca de três anos.
   - Como você consegue? Eu sinto arrepios só pelo fato deu saber que está escuro lá fora.
   Os dois começam a se conhecer melhor pelos seus medos comuns e resolvem tomar um café e comer algo até o voo de Achille chegar.
   - De que origem é seu nome? 
   - De origem francesa, é basicamente Aquiles em francês.
   - Lindo nome, mas faz quanto tempo que está nesta vida de fujão?
   - Cerca de quatro meses, acabei dormindo demais no hotel e perdi meu voo. O único que achei para hoje está atrasado, sorte minha...
   - Mas eu ainda não entendi a razão destes nossos medos tão ridículos, eu só conseguia trabalhar de noite e todas as janelas na minha casa eram fechadas e eu não deixava entrar nada de luz, só uma coisa ou outra para eu poder ler e fazer as coisas, claro. Mas de resto, tudo apagado. Eu amo a noite, as festas, o clima, a lua, tudo...
   - E eu amo o dia, o sol, praia, parque... Há belezas que só podem ser vistas de dia. 
   - E só há belezas que podem ser apreciadas de noite. Você já viu um céu estrelado?
   - Só por foto, de resto... A única estrela que eu vi de verdade é o sol.
   - Já eu nunca o vi, mas também não quero ver.
   Sem que Achille percebesse, seu medo havia passado, não lembrou que estava escuro lá fora e só pensava naqueles instantes, e claro que a moça lhe agradava aos olhos e ouvidos também, mas ter o mesmo medo no sentido oposto, fascinava. Começaram a diminuir as palavras e trocar olhares, sorrisos vinham e risadas sem motivos também. Quando finalmente suas mãos se encostaram e um quis beijar o outro, Achille escuta a chamada do número do seu voo.
   Interrompidos pela surpresa, disfarçaram. Não sabiam se si encontrariam outra vez, pois um estaria sempre na noite e o outro sempre no dia, mas trocaram números de celular, na despedida, houve um clima:
   - Sempre que quiser conhecer o dia e ver o sol, me avise, sinto que o conheço melhor que ninguém.
   - E o mesmo para você, o dia que quiser se aventurar na noite, terei o prazer de ser uma ótima companhia.
   Ele pega sua mala e sai em direção ao portão de embarque, olhando para trás, vendo-a acenar. Seguiu para onde o dia reinava, onde a luz fosse natural. O coração batia forte, não por medo, mas era por aquela moça que deixara na noite. Dentro do avião, não parou de pensar nos bons momentos que foram curtos, porém únicos.
   Estaria na noite aquilo que ele mais queria? Estaria em seu medo o seu maio desejo ou aquilo que acabaria com ele? Todo dragão esconde um tesouro. Pensou em voltar assim que chegasse a Londres, pensou em continuar fugindo, pensou em várias coisas, mas sentiu que estava correndo pelo o que queria e não pelo que precisava. 

 

 

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