9

 

   Em um lugar mais escuro que o abismo, mais silencioso que um choro contido e mais assustador que um olhar apaixonado, me encontro em descontrole. Sem lembranças, sem futuro e sem ciência, corro sem saber para onde ir, respiro sem saber como e não pisco. Não há vento e nem paredes, somente um chão pedroso e gélido, neste escuro trevoso encontro apenas o meu próprio desespero.
   Então vejo algo se aproximando lentamente, um colar dourado em forma de olho, aparenta estar flutuando até se aproximar e demonstrar-se pendurado em um pescoço estranho, apenas o colar brilha, mas não revela a face de quem o guarda, apenas uma parte do tronco negro.
   Uma mão gélida segura a minha e então sua voz grave aparece:
   - Medo não mais.
   Não sei por que, nem como, mas confiei naquela forma estranha e misteriosa. Parecendo me guiar pela escuridão, perguntei:
   - Para onde me levas?  
   - Para onde não posso ir.
   - Então por que me levas?
   - Porque aqui não podes mais ficar.
   - E o que é aqui?
   - Meu lar.
   - E por que moras aqui?
   - Porque decidi morar.
   - Para onde me levas é melhor do que aqui?
   - Não há lugar melhor que nossa casa, mas como aqui não é seu lar, melhor para você.
   Continuamos caminhando, ele me guiando como se tudo fosse claro e simples, eu de nada sabia, de nada via, somente aquele brilhante colar dourado. Transmitia muita segurança e conhecimento, o desespero de antes havia sumido, mesmo naquele profundo escuro em que nos encontrávamos, naquela estranha depressão, sentia-me perto de luz. Uma sensação que a cada passo era dado na direção certa. Isto me acalmava e me deixava curioso ao mesmo tempo:
   - Falta muito para chegar?
   - Isto depende do que é muito para você.
   - Já passamos da metade do caminho?
   - Ainda não.
   - Qual é o seu nome?
   - Você sabe o meu nome.
   - Então eu te conheço?
   - Conheceu faz algum tempo.
   - Então eu sabia seu nome antes de te conhecer?
   - Muito antes de esquecer que me conhecia.
   - Por que usa este colar?
   - E por acaso você me veria se eu não o usasse?
   - Mas eu só vejo o seu tórax.
   - E precisa ver mais?
   - Não sei, mas posso?
   - Há muita coisa que queremos, mas não podemos.
   - E esta eu posso?
   - E você merece para poder?
   - E o que faço para merecer?
   - No final, você merecerá.
   Mais a frente, vejo coisas flutuando cerca de uns três metros de altura, talvez sejam mais pessoas, parece um tipo de névoa, está brilhante e consigo ver melhor a medida que nos aproximamos:
   - O que são?
   - São o que você está vendo.
   - Pessoas?
   - E se parecem com pessoas?
   - Não.
   - Então não são pessoas.
   - Então o que são? Névoa apenas?
   - Névoa é o que parece ser, mas não é.
   Olho novamente e imagens no meio daquela névoa brilhante surgem a todos os instantes, pessoas, animais e até lugares aparecem e desaparecem. Transfiguram-se em outras formas, algumas reais e outras não:
   - São sonhos?
   - Sim.
   - Seus?
   - Não.
   - Então por que estão aqui?
   - E em qual outro lugar eles poderiam ficar?
   - De quem são?
   - Do criador do lugar para onde vamos.
   - E qual o nome dele?
   - Você sabe o nome dele.
   - Antes deu esquecer que sabia?
   - Muito antes de você esquecer que o conhecia.
   - Quantos nomes eu esqueci?
   - Esquecer nomes é o menor dos problemas.
   Golfinhos, flores, nuvens, faces apareciam num piscar de olhos e desapareciam em um suspiro. Divertidas e tranquilas, traziam paz ao coração, primeira vez que soltei minha mão da dele e fui brincar com os sonhos sedutores. Não deixando escapar o colar do campo de vista, claro. Ele continuava andando no caminho certo, e quanto mais eu o seguia, mesmo distraído, mais eles apareciam. Vindo em minha direção sonhos densos e mais profundos, alguns amarelados e outros avermelhados, chamas apareciam em furacões e se tornavam raios. Faces horríveis e assustadas rondavam meu corpo me impedindo de seguir em frente, pouco a pouco o desespero voltou a aparecer, o medo me cutucava e o descontrole já penetrava.
   Sua mão gélida pegou a minha novamente, o colar dourado reapareceu e o medo desapareceu. Não sei explicar o alívio que tive ao escutar:
   - Medo não mais. Estamos quase chegando.
   Atravessamos aquelas faces horríveis e continuamos nosso caminho em direção a algo que eu ainda não lembrava, sem se importar com os pesadelos, atravessamos tudo de cabeça erguida e certos de nosso curso. Passamos a névoa e a escuridão também, luz branca e pálida surgiu. O chão pedroso e gélido se tornou areia branca e fina. Curioso, logo olhei para a face de quem segurava minha mão, vi sua cabeça de chacal e se corpo envolto em linho egípcio branco. Anúbis se revelou sereno e sábio. Ele parou de andar antes que a luz dominasse todo o infinito espaço e disse:
   - Vá.
   - Você não vem?
   - Não posso.
   - Por que não?
   - Não é porque sei o caminho para o paraíso que posso entrar nele.
   - Você voltará para aquela escuridão?
   - Voltarei para o meu lar.
   - Entendo. Esquecerei você novamente?
   - Muitas e muitas vezes.
   Ele se afastou e seguiu caminho contrário ao meu. Solitário, foi embora com sua pouca luz e sua enorme sabedoria para o outro lado. Como a pouca luz que encontramos quando estamos na escuridão que apenas nos leva em direção a mais luz, mas não faz parte de tal luminosidade. Provavelmente ele foi ajudar mais pessoas ou ele apenas quer que elas saiam de seu lar. A luz solitária que caminha pela escuridão, realmente esquecemos que ela existe e algumas vezes até desacreditamos. Sigo agora para o reino de Osíris, lar iluminado, para lembrar o que mais eu esqueci. 

 

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Rafael Sunny | 11/11/2011

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