Degustador de Anéis

 
   Anéis de todas as formas, de todas as matérias e de todos os lugares do mundo, todos serviam de alimento e de prazer para uma criatura enlouquecida que corria pela cidade a noite. Humanoide, raquítica, sem os braços e enrolado em esparadrapo do início da perna até o topo da cabeça, com buraco no olho esquerdo para ver e outro na boca para comer. Na madrugada, invadia lojas e shoppings para se alimentar.
   Feitos de cobre, de aço, com pedras raras e semipreciosas, ele se deliciava escolhendo os melhores anéis com seu olho destampado. Aquele que brilhasse mais possuía mais sabor. Ele comia os de aço para se sentir mais forte, comia alguns de esmeralda para relaxar e os seus preferidos era os de rubis, quanto maior a pedra, maior o tesão que ele sentia.
   Em uma noite, correndo pelos corredores de um shopping, bateu de frente com uma porta de vidro de uma loja, o vidro despedaçou e o alarme começou a tocar, um som forte e irritadiço, um pouco machucado, a criatura se levanta meio desajeitada e entra na loja para fazer o seu banquete.
   Ele quebrava as vidraças jogando seu corpo contra elas, para depois abocanhar tudo que se encontrava em meio ao veludo. Comia somente anéis, o que fosse vidro, cuspia fora junto com um sangue amarronzado. A cada anel, uma sensação nova em seu estranho corpo, sentia-se feliz e animado, outras horas raivoso e neurótico, tudo dependia do material do anel.
   Então se deparou com algo que desconhecia, na verdade ele ficou confuso se conhecia ou não, parecia um anel, possuía o mesmo formato arredondado, mas não era um anel. Brilhando solitário em uma vitrine iluminada de azul, uma aliança de ouro amarelo entrelaçado com ouro branco parecia iluminar o olho da criatura. Tão belo, tão puro, tão fascinante o mostro julgava aquilo ser.
   Nunca tinha provado nada assim, mas também não sabia se era para comer, então resolveu só olhar. Sentou-se diante da aliança e ficou admirando, pouco a pouco seu corpo começou a balançar de um lado para o outro, como se estivesse dançando ao som daquele alarme estrondoso.
   Ele percebeu que, ao olhar aquela aliança, encontrou algo que nenhum dos anéis dava a ele, respeito por si próprio. Pela primeira vez não se sentiu tão mostro, de repente, algumas lágrimas encheram seu olho esquerdo e logo saiu sangue marrom dele, seu corpo parou de balançar e depois caiu no chão. Um vigia noturno tremia sua mão com a arma ainda saindo fumaça, sem saber no que havia atirado e nem o que havia matado.

 

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Comentários:

Tocante

William Paiva | 12/08/2012

Acheu fantástico

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