Bem-estar

 

 

   Eles continuam lá, tentando e tentando, ridículos. Insetos são tão nojentos e asquerosos, desejo a morte de cada um deles. Sempre tentam, mas nunca entraram em minha casa, eles batem nas janelas e tentam passar por de baixo das portas. Não sou eu quem eles querem, devem ser os cravos brancos em cima da minha mesa. Faz dias que estou a olhar pelas janelas e ver moscas, baratas e mariposas batendo nos vidros. Que desgosto isto me dá.
   Se eles querem os cravos, irei dá-los a eles, primeiro coloquei todos eles no chão, depois eu pisei em cima de cada um, despedaçando cada pétala, para depois degustar daquilo que restou. Mas eles não pararam de querer entrar.
   Eu costumo dizer que para se entender um monstro, deve-se sofrer como ele, mas insetos são diferentes, eles não sofrem, pelo contrário, eles se alimentam de nosso sofrimento. Insetos e mais insetos do lado de fora, como eu desejo que caia pedras do céu para matá-los. Eles querem que eu abra as portas e as janelas, querem me levar para fora, querem que eu me torne mais um deles. Não tem vergonha de esconderem isto. Quem me dera se eu tivesse cobras e iguanas aqui para fazer da vontade deles a minha armadilha.
   Ah, finalmente começou a chover, quem sabe eles não vão embora. Se bem que eu acho difícil, pernilongos nunca desistem de sugar seu sangue, moscas nunca desistem de cagar na nossa comida e baratas, as famosas baratas, que nunca desistem de entrar em nossos ouvidos enquanto dormimos fazendo-nos ter pesadelos todas as noites. Como eu já previa, eles não foram embora.
   Talvez ao som dos meus gritos eles se assustem, será? Não... É só mais uma oportunidade deles entrarem no meu estomago para comerem os restos dos cravos. Minha vontade é de meter um tiro no meio de mim para isto terminar logo, se bem que deve ser isto mesmo o que eles querem. Insetos querem a morte de quem querem matá-los, são seres minúsculos e insignificantes, mas me incomodam de um jeito que não consigo explicar, até parece coisa de outro mundo.
   Talvez se eu explodisse a casa toda e me protegesse no porão, talvez todos eles morressem, ótima idéia! Deixei o gás vazando por um bom tempo, até a vista ficar embaçada, acendi o fósforo e joguei no meio da sala, foi instantâneo, enquanto o fogo vinha, eu corria para o porão, me joguei das escadas em um ato desesperado, mas mesmo assim o fogo me atingiu, metade da minha cara foi brutalmente queimada, mas eu sobrevivi. Quando acordei a casa tinha desmoronado e virado apenas destroços, não havia mais insetos em nenhuma janela e nem em outro lugar.
   Eu consegui, posso dizer que ambos conseguimos, eu matei todos eles e, aqueles malditos, fizeram o trabalho deles, destruidores de casas, destruidores de vidas. Custou-me minha casa e mais metade da minha bela face, mas valeu a pena não mais sentir nojo, finalmente encontrei o meu bem-estar. Espere! O que é isto, um zumbido? 
 

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